A era do "parecer"

Nem "ter", muito menos "ser" de verdade. Tenho me convencido cada vez mais que o conceito de nossa época é o "parecer". Parecer ser alguém que na verdade não se é, parecer ter condições que realmente não tem... tudo isso em busca de autoafirmação, elevação de status, tentativa de inclusão num grupo, de demonstração de poder (em vários sentidos).

Para ilustrar melhor o que quero dizer, exemplificarei. Recentemente, tive acesso a algumas pesquisas de mercado de um cliente com quem trabalho e essas pesquisas eram sobre alguns produtos como TVs LCD, marcas de roupas, de aparelhos eletrônicos e alimentos. Tais pesquisas foram realizadas inicialmente de forma individual com os entrevistados (normalmente das classes socioeconômicas B e C — entendendo-se classe C principalmente como a "nova classe média" que chegou a esse patamar recentemente), em suas residências, e depois com essas pessoas reunidas em grupos. Foram pesquisas encomendadas por empresas para conhecer melhor o mercado, saber que imagem elas têm entre o público consumidor e criar estratégias de vendas.

As informações obtidas foram bastante interessantes e comprovaram para mim algo que eu já acreditava ser a realidade. As pessoas se utilizam do consumo como forma de afirmação social, diferenciação, realização interior, autoafirmação também, para demonstrar o sucesso econômico que têm, ou que não têm mas querem aparentar ter. O que se observou na pesquisa muito comumente foi que em casas pequenas, mal-cuidadas, cheias de necessidades importantes de reparos, havia grandes TVs LCD nas salas, desproporcionalmente grandes, ocupando um espaço além do que seria razoável, mas estavam lá, absolutas, o centro das atenções. Também se constatou que muitos entrevistados gostavam de comprar produtos falsificados de camelôs que ostentavam assinaturas de famosas marcas internacionais, para os outros verem que elas "usavam" produtos de marcas que davam status. A compra de grandes veículos (utilitários esportivos, station wagons e cia.) também é realizada muitas vezes porque esses veículos fazem seus proprietários se sentirem "importantes, realizados, poderosos, pertencentes a uma 'elite'"... mesmo que isso signifique pagar altas prestações durante anos a fio e deixar de investir num plano de saúde, em educação melhor para os filhos ou em produtos e serviços que poderiam contribuir para um aprimoramento cultural. Ter um computador de último tipo, desejo realizado ou em planejamento de muitos entrevistados, não significava que com isso eles pretendiam alcançar novas possibilidades de aquisição de informação e cultura. Participação em redes sociais e utilização do computador como ferramenta de trabalho foram os motivos práticos citados para a aquisição das máquinas, e tais motivos geralmente não justificavam a escolha por modelos dos mais avançados e caros. O status de ter um computador avançado e caro pesava muito na hora da escolha.

Creio que o luxo, a satisfação de alguns de nossos desejos de consumo e posse, a realização de algo que gostamos de fazer, de uma vontade, é necessário para viver bem, afinal, a vida não é só trabalho e obrigações (sobre isso já escrevi no artigo "Luxo para viver", aqui no site mesmo). Porém, vejo as pessoas colocando na frente da realização de necessidades mais importantes a satisfação de desejos consumistas, muitas vezes fazendo de tudo para se sentirem "parte" de um mundo que admiram e desejam por meio da obtenção de produtos de consumo que creem que as farão membros desse mundo/estrato socioeconômico, que veem como ideal.

Repito que é necessário realizar vontades nossas para ter uma vida agradável, mas com bom-senso. Se eu tenho um veículo caro, que me faz parecer ser de uma camada socioeconômica superior que necessariamente não é a minha, isso não é nenhum pecado mortal, mesmo porque o que é pecado (isso existe, pecado?)? Mas o tempo e o dinheiro que gastei para adquirir aquele bem material valeram realmente a pena? Não poderiam ter sido usados para algo mais útil? Não teria sido melhor comprar um carro mais simples e com o restante do dinheiro eu ter feito um curso que desejava ou precisava e que seria positivo para mim? Ou ter feito terapia? Ou ter comprado um guarda-roupas novo, porque o meu está caindo aos pedaços? Se para mim o que importa mesmo é ter o utilitário esportivo gigante em minha garagem, que mal consigo fechar o portão porque, de tão grande, o veículo quase fica com a traseira na calçada, e ter uma casa caindo por dentro e uma limitação de currículo profissional ou de cultura geral, de autoconhecimento, de visão de mundo e do outro, pois o tempo e o dinheiro que poderia empregar nisso uso para comprar bens que pretensamente me dão status e realização, creio que tenho uma percepção um pouco distorcida do que realmente importa na vida, do que poderia de verdade me fazer ser uma pessoa mais feliz e realizada, satisfeita.

A maioria de nós quer ter acesso ao que é bom, principalmente quem teve isso negado por muito tempo, sentir-nos aceitos entre os que admiramos, mas que isso não seja o maior objetivo de nossas vidas. Mesmo porque ter carros, TVs e etcs. nunca fez, por si só, alguém ser feliz, melhor que os outros e bem aceito por aqueles que são a elite social, econômica e cultural. Cultura é um fator que engrandece as pessoas e as fazem ser admiradas por aqueles que verdadeiramente importam. Segurança interior, tranquilidade, gentileza, alegria de viver, senso de humanidade, justiça também. Comprar uma roupa de grife internacional (ou uma versão falsa) para parecer que é rico e ser admirado e invejado só o fará ser admirado por quem também se pauta por valores equivocados e não trará verdadeira satisfação e crescimento interior, você sempre precisará de mais, para se provar o tempo todo e provar para os outros que é alguém "importante". A indústria de consumo e a mídia vão apoiar esse seu estilo de vida, pois querem mais é que você compre, gaste seu dinheiro e atenção com eles, e que bom se você sempre quiser mais e mais...

A pergunta é: até quando você vai continuar nessa dinâmica (ou irá entrar nela?) de consumir para parecer ser alguém que de verdade não é, deixando de lado o que verdadeiramente poderia fazê-lo ser uma pessoa melhor e ter mais uma vida mais leve?

Marcus Facciollo

Minha foto Desde 1994, vem investindo no crescimento pessoal, autoconhecimento e melhor entendimento da vida e do ser humano, seja por meio de cursos (como os da Fundação ACL) ou de (auto)análise. Desde criança, tem vocação para escrever e para o mundo das letras, área na qual é formado. Trabalha atualmente como revisor de textos e publica textos de sua autoria nas áreas de comportamento humano, relacionamentos e autoconhecimento. Lança em breve seu livro "A vida pode ser mais leve", coautoria com Sérgio Fernandes.
E-mail: marcusmf@gmail.com
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