FEIO É ACHAR-SE FEIO

Achar-se feio. Ô coisa ruim! Olhar-se num espelho e não gostar do que vê, ter vergonha de sua aparência, evitar se mostrar, aparecer em fotos, não se aproximar das pessoas por achar que elas vão querer sair correndo ou o desprezarão por sua feiura, retrair-se num mundo de solidão e tristeza. Achar que a grande maioria é mais bonita que você, que seu rosto não tem nada de belo, que seu corpo é desengonçado, ou gordo, ou magro, ou torto... tantas coisas erradas! Assim é difícil ser feliz, satisfeito consigo e viver bem.

Mas... o que é ser feio, o que é feiura? São conceitos absolutos? Ou, na verdade, o conceito de feiura é algo relativo, que varia de pessoa para pessoa, sociedade para sociedade, época para época.

Em nossa sociedade atual, existe um padrão determinado de beleza, com variantes, e quem não se enquadra pode pensar que é feio. A imprensa, o comércio, grupos sociais contribuem para reforçar esse padrão e a ideia de desajuste e insatisfação de quem nele não se enquadra. Se quem não se enquadra no padrão estiver com a autoestima comprometida, for inseguro, então, a coisa vem com força.

Feiura e beleza são conceitos, na verdade, relativos, que variam, sim, de tempos em tempos e de pessoas para pessoas. O que é considerado feio hoje pode já ter sido considerado bonito em outro momento ou sê-lo por outro grupo de pessoas. Lembro-me sempre do que uma amiga me contou. Faz um tempo, ela viu uma reportagem na televisão sobre a ilha de Tonga, na Polinésia. Lá, o padrão de beleza física para as pessoas é estar acima do peso, serem obesas, até. Nessa mesma reportagem, quando uma pessoa, estrangeira e mais magra, andou pelas ruas do local, os habitantes ficaram comentando como ela era feia, alguns até tiraram sarro da pessoa. Isso parece não mudar em quase lugar nenhum do mundo, criticar e menosprezar quem está fora do padrão! Ai, ai, ser humano... Nem precisamos ir tão longe, para Tonga. Até o início dos anos 90 do século passado, aqui no Brasil, a maioria das mulheres achava bonito ter seios de pequenos a médios, e conheço várias pessoas que na época fizeram cirurgia para redução do tamanho das mamas, algumas por motivo médico, porque tinham seio grandes e isso prejudicava a coluna, outras por razão estética mesmo. Alguns anos depois, a coisa mudou totalmente. Influenciadas por um padrão de beleza importado, principalmente dos EUA, muitas mulheres começaram a colocar silicone nos seios para aumentá-los, fazendo isso até os extremos do exagero. Ou seja, será que temos de ficar à mercê de padrões sazonais de beleza para sermos aceitos e nos sentirmos bem?

Todo mundo um dia ou outro acorda, olha-se no espelho e pensa "Nossa, como estou horrível!". Ok, tudo bem, isso acontecendo uma vez ou outra, num momento de baixa na autoestima, no astral, num período de tristeza, passa. Mas todo dia olhar-se no espelho e achar-se o rei ou rainha da feiura indica que algo não vai bem dentro da pessoa, e isso precisa ser trabalhado. É um problema afetivo, de autoestima, de falta de confiança em si, em seu valor, potencial. Nessa hora é necessário um exercício de revisão de conceitos e vida, sobre si, tentar descobrir o que o está colocando nesse estado tão triste. Normalmente, a pessoa não se acha feia por ser fisicamente quem é, mas por motivos interiores que precisam se resolvidos para que ela recobre a autoaceitação, apreciação, o amor por si e pelo que é física e interiormente.

A beleza que realmente importa é a de dentro, da mente e do espírito. Claro, não é por isso que se vai abandonar o cuidado com a aparência externa e só investir no mundo interior. Cada ser humano é um todo, que compreende corpo, mente e espírito, e todos esses elementos precisam ser cuidados da melhor forma para que vivamos bem e felizes. Supervalorizar um desses aspectos em detrimento de outro(s) é um erro, bastante comum, e demonstra que a pessoa está com dificuldade em lidar com algum(ns) dele(s). Uma pessoa que supervaloriza a beleza exterior, por exemplo. Aquele ser narcisista, que se acha lindo, mais lindo que qualquer um. Normalmente, essa pessoa tem um problema de baixa autoestima, sente um vazio interior, e pretende suavizar essa sensação investindo na construção de um visual perfeito. Ou há insegurança quanto a si mesmo, a pessoa compra um padrão social de beleza e acha que se segui-lo à risca será mais bem aceito pelo grupo e, por conseguinte, mais feliz. Só que nada disso adianta, a pessoa pode estar externamente bonita mas lá dentro continua com seus problemas não resolvidos.

Se alguém não gosta de algum aspecto externo próprio, pode trabalhar para melhorá-lo, sem problema nisso. Como já dito, somos seres multifacetados, com interior e exterior, que merecem ser cuidados. Mas achar que investir só em beleza externa resolve algum problema interno, mais profundo, isso é ilusão. Uma mudança positiva no visual pode levantar a autoestima, sim, mas só isso não soluciona todas as dificuldades interiores.

Todo mundo tem sua beleza pessoal. Em uns, ela pode ser mais percebida na aparência, em outros, no modo de ser, de agir. Outros têm equilíbrio nesses dois aspectos. Só que, com certeza, a beleza que mais faz a diferença, tanto no bem estar da própria pessoa como para quem convive com ela de maneira sadia, é a de dentro. Se você está satisfeito consigo, com o que é, com a vida que leva e se ama, vai se olhar no espelho e gostar do que vê, na maioria das vezes. Vai ser alguém querido pelas pessoas bacanas que também possuem essa beleza dentro delas, que são as pessoas que importam e que podem trazer algo positivo para você. Aquelas pessoas que supervalorizam a beleza física e pouco cultivam a interna, se o acharem feio, problema delas, são gente que com certeza não teria muito a acrescentar-lhe num convívio mais constante. Deixe-as com toda a "beleza" que têm, lá no cantinho delas, curtindo a inquietação e a insatisfação que residem em seu aspecto íntimo e que tentam maquiar com um visual supercaprichado.

Se você se sente feio, procure se reavaliar, conhecer melhor suas qualidades, valorizá-las, ache sua beleza singular. Não tem que seguir padrão nenhum, só tem que seguir o que de verdade descobrir, dentro de si, que pode fazê-lo ser mais feliz. Invista no seu crescimento como pessoa, no crescimento intelectual, afetivo, cuide também de seu exterior com o carinho que ele merece; se algo não lhe agrada nele, pode melhorar, mas sem ficar obcecado pela aparência. Quando se sentir mais confiante, não vai deixar de fazer as coisas que quer porque tem vergonha de sua aparência, vai sim é se achar bonito, sentir-se bonito por dentro e por fora, com direito e munição para ir atrás do que deseja. Pode parecer clichê, mas a verdadeira beleza, a mais forte, é aquela que você transmite com seu senso de justiça, afetividade, polidez, sabedoria, simpatia.

Isso não é papo de consolação para gente feia. Primeiro que, como já exposto, feio é algo muito relativo, e não existe feiura absoluta. Segundo, é só prestar atenção na vida, com boa vontade, e perceber se não é mais agradável estar ao lado de uma pessoa exteriormente não tão "bela", mas interiormente brilhante, do que ao lado de alguém que parece uma estátua de um deus grego e tem o interior de estátua de mármore mesmo, frio e duro.

Feio mesmo é achar-se feio. Se você hoje se sente assim, sem culpa por isso. Saiba que é algo que você tem possibilidade de mudar, sozinho, com a ajuda de outros, com conhecimento, reflexão, talvez com uma caprichadinha no visual, se entender ser algo necessário depois de analisar-se racionalmente e mais fortalecido psicologicamente. Mas nunca deixe de se aperfeiçoar interiormente, quanto mais fizer isso, mais estará se tornado uma pessoa verdadeiramente LINDA!

Marcus Facciollo

Minha foto Desde 1994, vem investindo no crescimento pessoal, autoconhecimento e melhor entendimento da vida e do ser humano, seja por meio de cursos (como os da Fundação ACL) ou de (auto)análise. Desde criança, tem vocação para escrever e para o mundo das letras, área na qual é formado. Trabalha atualmente como revisor de textos e publica textos de sua autoria nas áreas de comportamento humano, relacionamentos e autoconhecimento. Lança em breve seu livro "A vida pode ser mais leve", coautoria com Sérgio Fernandes.
E-mail: marcusmf@gmail.com
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