Conheça seus medos

Estava pensando sobre o conceito de medo. Não vou escrever sobre fobias, medos decorrentes de distúrbios psicoafetivos, isso é questão para profissionais das áreas de saúde mental e psicologia. Mas abordarei dois tipos de medo, o medo que preserva e o medo que sabota. Um é cautela, o outro é paralisação.

Pode-se ter medo de tentar algo, de alguém ou de uma situação por sentir-se inseguro, por temer por sua integridade (física, mental, social, etc.), por achar-se despreparado, sem condições de levar adiante uma ação, pelo menos no momento, isso percebido numa autoanálise isenta, sincera. E pode-se ter um medo que é causado por um lado nosso que quer que nos prendamos a estruturas nem sempre muito boas, internas ou externas, que está ligado a percepções distorcidas que temos sobre nós e sobre o mundo.

Como identificar quando o medo é de um tipo e quando é de outro? Muitas vezes, é muito claro. Noutras, a coisa não é tão simples assim. Primeiramente, admitir que ter medo é normal e faz parte da vida é um bom começo. Sem culpas por sentir medo. Quem não tem medo de nada provavelmente está equivocado. Sim, porque o medo também é sinal de inteligência e percepção das coisas.

Tendo isso em mente, procurar fazer uma análise do motivo desse sentimento. É causado por questões reais ou por suposições, resistência a mudanças, ideia de falta de capacidade e força interior?

Se o medo é fruto de uma percepção racional, é um "recado" para tomar cuidado, se preparar mais, avaliar melhor a situação, provavelmente você está diante de um medo positivo, que evitará que faça uma besteira. Esse medo é uma mensagem interna que visa a protegê-lo de consequências negativas.

Quando perceber que o sentimento de medo não tem a ver com autopreservação, em vários sentidos, é hora de desconfiar que ele pode ser fruto de estruturas internas que não são muito positivas e são companheiras da insegurança, ansiedade, baixa autoestima. Aí, o que se tem a fazer, antes de superar esse sentimento, é resolver o que não está tão legal assim em seu interior e gera esse medo que acaba por atrapalhar sua vida.

Para ter essa percepção sobre os tipos de medo e conseguir resolver aqueles que são infundados e criados por uma visão distorcida sobre si, só com um conhecimento maior sobre quem você é. Novamente, é o autoconhecimento que trará as soluções. O olhar-se com sinceridade, disposto a ficar cara a cara com suas limitações, preconceitos, visões erradas sobre quem realmente é e o que quer, precisa. Sem se conhecer melhor, não poderá discernir sobre o que realmente sente. O autoconhecimento é trabalhoso, assusta, pode causar reviravoltas dentro e fora de você? Sim. Mas só por meio dele você consegue crescer e se libertar de tudo o que o prende a conceitos e situações que não lhe fazem bem, inclusive o tipo de medo que o impede de viver melhor. (Se nesse processo precisar da ajuda de alguém capacitado, não tenha vergonha, peça, isso não será sinal de fraqueza, mas de sabedoria.)

Tempo para pensar na vida

Alguém pode lhe perguntar, ao vê-lo(a) pensativo(a): "O que foi, está assim sem fazer nada... está pensando na vida?".

Se a resposta for positiva, que bom! Precisamos, uma vez ou outra, parar tudo o que estamos fazendo para pensar um pouco sobre a vida. Só pensando, analisando algo a fundo podemos perceber o que está bom, o que está ruim, o que precisa ser mantido e o que precisa ser mudado.

Já ouvi pessoas dizerem "Nossa, nem tenho tempo de me sentir solitário(a)/pensar nos meus problemas/me sentir triste, é tanta coisa para fazer...". Sinceramente, isso me deixa um pouco chateado. Precisamos ter tempo para pensar em como estamos vivendo. Se você não se permite ter esse tempo, que pode ter uma duração variável, muito provavelmente está "no automático", deixando as coisas acontecerem sem ter muito controle sobre elas nem perceber se está tudo bem ou não.

Essa falta de tempo para pensar na própria existência pode acontecer por não se dar conta de que isso realmente é importante ou então ser algo proposital: você não se permite ter momentos para pensar em sua vida porque sabe que muita coisa não está bem, há muito para ser modificado, então melhor não pensar, pois isso poderia deixá-lo(a) triste; perceber isso também significaria precisar mudar pensamentos e atitudes, e isso dá trabalho, dá medo. Melhor deixar como está e ir levando, sem pensar muito no assunto...

O problema é que, se deixamos o barco correr, sem darmos a ele uma direção que seja favorável a nós, ele pode nos levar a destinos que nem de longe seriam os melhores para nós. Então, chegando lá, qual seria a atitude? Novamente não pensar no assunto e deixar o barco ir de novo sem destino? Dizer que o tempo passa seria uma justificativa para não agir assim. Claro, para algumas coisas o tempo passa, chances são perdidas, não voltam nunca mais. Porém, para muito sempre haverá novas oportunidades, se não exatamente iguais, parecidas. Creio que até o último dia de nossas vidas podemos fazer e conquistar bastante, externa ou internamente, em diferentes aspectos. O grande problema de deixar a vida passando sem que tenhamos consciência é que, ao sermos levados por ela para rumos não planejados, corremos o risco de ir perdendo a força de vida, a esperança, a fé em nós mesmos. Vai-se indo cada vez mais para longe do que nos faria bem, não se é autor da própria história, isso gera insatisfação, tristeza até. Aí culpa-se a vida. Como ela é injusta, ruim. Tornamo-nos amargos e descrentes, com a tendência de cada vez mais evitar tomar consciência de nossas vidas para não sofremos. E a espiral vai crescendo e nos puxando para o fundo.

O que precisa ser feito, num caso assim, é parar um pouco e se perguntar: o que tenho feito de minha vida, o que tenho feito de/para mim? As coisas estão como quero, estão da melhor maneira possível? Vai ser estranho, vai dar medo, vai dar uma sensação de desorientação, impotência, raiva até. Mas isso deve ser aproveitado, esse movimento de indignação inicial, para que se promovam mudanças positivas que venham nos fazer viver melhor, ser melhores, ter mais alegria e prazer na vida. Nada de parar para pensar na vida, ver que muito está errado e desistir, permanecendo na inércia. Se você já decidiu encarar sua existência de peito e mente abertos, continue tendo essa coragem e arrume o que não está direito, com certeza terá muitas vitórias e satisfações.

O medo de enfrentar uma situação ou de mudar não pode fazer com que deixemos a vida ir ao léu. Mesmo que num primeiro momento doa, precisamos encarar os fatos e a nós mesmos para decidirmos por rumos melhores. E pode nem ser tão difícil assim mudar, muitas vezes as soluções são simples, estão diante de nossos próprios olhos, mas se não nos dermos a chance de parar e pensar não conseguiremos encontrá-las.

Não fujamos de nós mesmos e de nossas vidas. Afinal, isso é tudo que realmente temos e se não cuidarmos com carinho, quem o fará? Só eu posso saber o que realmente é melhor para mim. Não inventemos falta de tempo, problemas, e se realmente os tivermos arranjemos uma brecha para regularmente refletirmos sobre como as coisas vão indo dentro e fora de nós. Sem tornar isso uma obsessão nem uma avalanche de pensamentos que acabam mais por confundir do que ajudar e tendem a levar à inatividade e frustração, mas usando a razão e a emoção para concluirmos a melhor forma de prosseguir.

Marcus Facciollo

Minha foto Desde 1994, vem investindo no crescimento pessoal, autoconhecimento e melhor entendimento da vida e do ser humano, seja por meio de cursos (como os da Fundação ACL) ou de (auto)análise. Desde criança, tem vocação para escrever e para o mundo das letras, área na qual é formado. Trabalha atualmente como revisor de textos e publica textos de sua autoria nas áreas de comportamento humano, relacionamentos e autoconhecimento. Lança em breve seu livro "A vida pode ser mais leve", coautoria com Sérgio Fernandes.
E-mail: marcusmf@gmail.com
Ocorreu um erro neste gadget

Arquivo do blog